Instituto MBCBrasil

Nem só carro de elétrico se chega ao futuro: Brasil pode construir rota própria para descarbonizar a mobilidade

15 de junho de 2026

A transição da mobilidade no Brasil pode passar menos por uma substituição dos carros à combustão por modelos elétricos e mais por uma combinação de rotas tecnológicas adaptadas à realidade energética e industrial do país.

Etanol, híbridos-flex, biometano, biodiesel, combustíveis sustentáveis de aviação, eletrificação parcial e infraestrutura de recarga formam um mosaico estrutural que, segundo especialistas, pode transformar vantagens brasileiras em uma estratégia de descarbonização, de fato, competitiva.

O acordo entre Mercosul e União Europeia, concluído após mais de 20 anos de negociações, tende a ampliar exigências ambientais sobre produtos brasileiros. A pressão por rastreabilidade, pegada de carbono e critérios sociais deve crescer sobre cadeias ligadas à indústria automotiva, energia, combustíveis e agroexportação.

“Ao mesmo tempo em que o acordo abre mercados para a indústria automotiva e bioenergética do Brasil, com alíquotas declinantes, portanto mais atrativas, ele impõe rígidos critérios de medição da pegada de carbono no ciclo produtivo, da comprovação de rastreabilidade ambiental e a aderência a critérios sociais previstos nas diretrizes europeias”, analisou o presidente do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, em entrevista ao Um Só Planeta.

Luzzi considera que a competitividade comercial brasileira deverá estar associada ao cumprimento desses requisitos. O desafio, porém, é fazer com que as especificidades da matriz energética brasileira sejam reconhecidas nos parâmetros internacionais.

“Há um caminho a ser percorrido para que a comunidade europeia aceite os biocombustíveis de primeira geração como fontes de descarbonização da mobilidade e das certificações nacionais como válidas nos parâmetros definidos por suas diretrizes”, avaliou José Eduardo.

Uma transição menos óbvia

O Instituto MBCBrasil é uma organização multissetorial dedicada a acelerar a descarbonização da mobilidade no país. A entidade reúne empresas, associações, entidades de pesquisa e representantes de trabalhadores com o objetivo de transformar evidências técnicas em propostas de políticas públicas. Sua atuação se baseia na chamada neutralidade tecnológica, conceito segundo o qual diferentes soluções podem contribuir para a redução de emissões, desde que avaliadas por critérios técnicos e pelo impacto real ao longo do ciclo de vida.

Essa visão aparece no estudo “Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040”, elaborado pela LCA Consultores para o Instituto MBCBrasil. O levantamento projeta uma expansão expressiva dos veículos eletrificados no Brasil, mas indica que a transição nacional continuará fortemente apoiada nos motores flex e nos biocombustíveis.

De acordo com o estudo, a participação dos veículos eletrificados na frota circulante deve crescer 44 vezes até 2040. No segmento de veículos leves, os eletrificados podem chegar a 17,4 milhões de unidades, mais de 27% da frota nacional. Ainda assim, os motores flex devem seguir predominantes: a projeção é que representem 62,4% da frota leve em 2040.

Na visão de Luzzi, esse dado mostra que a discussão sobre mobilidade sustentável ficou excessivamente concentrada no carro elétrico, desviando possibilidades para acelerar o processo.

“A eletrificação é uma tecnologia importante e terá um papel crescente globalmente, mas a discussão não pode ignorar as realidades econômicas, sociais, energéticas e industriais de cada país. No caso brasileiro, defender apenas uma rota tecnológica significa desconsiderar vantagens competitivas já consolidadas, especialmente, em bioenergia”, afirmou.

Nesse ponto, os híbridos-flex aparecem como uma das principais apostas brasileiras. Oriundos do setor de bioelétricos, esses veículos combinam eletrificação parcial com o uso de combustível renovável, especialmente, o etanol. A tese é que essa solução pode reduzir emissões sem estar atrelada à infraestrutura de recarga ainda em expansão.

“Os bioelétricos, híbridos-flex, representam uma solução particularmente aderente à realidade brasileira porque combinam eficiência energética, eletrificação parcial e uso de combustível renovável. Isso permite reduzir emissões de forma competitiva, sem depender exclusivamente de uma infraestrutura de recarga ainda em expansão ou de uma substituição acelerada da frota nacional”, disse Luzzi.

Etanol, SAF e biometano

O estudo também projeta uma ampliação da demanda por etanol. No cenário-base, o consumo do combustível no ciclo Otto deve passar de 33,6 bilhões de litros em 2025 para 47,8 bilhões de litros em 2040. Em um cenário alternativo, pode chegar a 52,2 bilhões de litros.