Instituto MBCBrasil

O momento para o Brasil na nova ordem automotiva europeia

13/01/2025

Fonte: ESTADÃO NEOMONDO

Em outubro de 2025, o modelo brasileiro para descarbonização da mobilidade foi apresentado no Parlamento Europeu. Na ocasião, já havia um debate em curso sobre a revisão das diretrizes europeias para a transição energética nos transportes, onde a discussão central era como conciliar a descarbonização com os desafios impostos pela concorrência chinesa e a viabilidade das diversas tecnologias disponíveis. O modelo brasileiro, que propõe a coexistência de biocombustíveis e eletrificação, foi defendido como uma solução pragmática que acelera a transição energética de forma competitiva, com responsabilidade social e econômica.

Dois meses depois, a União Europeia anunciou um recuo histórico em uma de suas políticas mais restritivas, revendo a diretriz que baniria os motores a combustão a partir de 2035 já que impunha 100% de redução nas emissões de CO2 medidas do tanque à roda. A regra até então vigente praticamente limitava o futuro aos veículos elétricos (BEV) ou ao movidos a hidrogênio verde, ambos de alta complexidade e custo, além de infraestrutura insuficiente.

A nova diretriz, no entanto, permite a continuidade dos motores a combustão, desde que assegurada uma redução de 90% nas emissões de gases de efeito estufa, com os 10% restantes podendo ser compensados pela utilização de aço de baixo carbono fabricado na Europa, por créditos de carbono e pelo uso de biocombustíveis avançados ou combustíveis sintéticos, os chamados e-fuels.

Essa mudança abre uma avenida de oportunidades para o Brasil. Nossa matriz elétrica 90% limpa, aliada à abundância de recursos hídricos e ao potencial de captura de CO₂, nos posiciona como um hub natural para a produção e exportação de e-fuels. Ao mesmo tempo, nosso domínio na produção sustentável de etanol e biodiesel, somado à tecnologia consolidada dos motores flex e híbrido-flex, transforma o que era uma solução doméstica em um ativo estratégico global. A tecnologia brasileira será importante para a Europa manter sua indústria automotiva competitiva, seja importando nossos modelos, comprando nossa tecnologia ou desenvolvendo veículos similares.

Contudo, a captura dessas oportunidades não será automática. A diretriz europeia RED III (Renewable Energy Directive III) é o principal instrumento legislativo da União Europeia para promover o uso de energia de fontes renováveis. Ela estabelece metas e critérios de sustentabilidade para biocombustíveis, classificando-os em categorias como “avançados” ou “de resíduos”, que recebem benefícios e incentivos, enquanto os biocombustíveis de primeira geração, como o etanol de cana, de milho e o biodiesel de soja, apesar de sua comprovada eficácia ambiental, ainda não são elegíveis aos mesmos benefícios. É aqui que a diplomacia brasileira precisa agir, buscando o reconhecimento da performance climática e da disponibilidade em larga escala de nossos biocombustíveis. Além disso, sua exportação para a Europa exige a comprovação da redução da pegada de carbono no ciclo de vida conforme critérios pré-determinados, e certificações europeias que atestem que a biomassa não seja oriunda da conversão de áreas de alta biodiversidade após 2008.

O novo pacote automotivo europeu ainda será detalhado em atos delegados, especificações técnicas e procedimentos administrativos. Portanto, o momento de agir é agora. É fundamental que a diplomacia brasileira em Bruxelas acompanhe de perto esses trabalhos, unindo esforços com eurodeputados que compartilham de nossa visão eficaz e pragmática da transição energética. O acordo entre União Europeia e Mercosul pode contribuir significativamente nesse processo.

Governo e agroindústria devem trabalhar pela interoperabilidade entre nossas regulamentações, como o RenovaBio, garantindo reconhecimento mútuo entre os marcos regulatórios brasileiro e europeu. Do ponto de vista industrial, cabe a nós posicionarmos as tecnologias flex e híbrido-flex como soluções complementares à eletrificação, oferecendo à Europa alternativas concretas para reduzir emissões, preservar empregos e manter sua competitividade.

A experiência brasileira demonstra que é possível descarbonizar de forma acelerada sem excluir consumidores, sem desindustrializar cadeias produtivas locais e sem transferir dependências estratégicas de um polo geopolítico para outro. Se houver coordenação e senso de urgência entre governo, diplomacia, indústria automotiva, setor agrícola e sistema financeiro, o Brasil pode não apenas atender às novas exigências europeias, mas contribuir ativamente para moldá-las, ajudando a construir soluções globais ambientalmente robustas e economicamente viáveis.

*José Eduardo Luzzi, Presidente do Conselho do Instituto MBCBrasil e Diretor do Segmento de Veículos Comerciais da Abipeças e do Sindipeças.